Êeeeeh Rondonópolis, digo eu

Por Eduardo Gomes de Andrade

Em meados de 1994, o Brasil estava de olho na Copa do Mundo. A pátria de chuteiras desconhecia que centenas de famílias de agricultores sem-terra estavam acuadas ao pé da Serra de São Jerônimo, onde o planalto é engolido pelo Pantanal Mato-grossense, nos cafundós dos limites de Santo Antônio de Leverger com Rondonópolis.

De um lado, a Polícia Militar isolava a área da fazenda Itiratupã, onde os sem-terra estavam acampados. De outro, a imensidão pantaneira era barreira natural. Mulheres, crianças e homens de mãos calejadas, humilhados por uma liminar de reintegração de posse – sabe Deus como conseguida – sob a mira de fuzis embarcavam o pouco que lhes restava em carrocerias de caminhões. O destino: a incerteza. Mas a primeira parada, sem dúvida, seria Rondonópolis, de onde procediam.

José (Zé) Ambrolino embarcaria num dos caminhões com a mulher Rosa e os dois filhos do casal, Juninho e Raquel. Mas ofereci-me para levá-lo com a família e a cadela vira-lata Beleza e dois ou três sacos amarrados, contendo a miséria material da família.

Conheço Zé Ambrolino desde 1977, quando ele era garoto em Rondonópolis e engraxava sapatos na porta do extinto (bar) Barbarella, do ex-secretário de Segurança Pública Arquimedes Borges Monteiro. Depois do despejo não mais o vi.

Em agosto de 2001, estive em Paranorte, município de Juara, no limite com Nova Bandeirantes. Na volta parei no boteco do entroncamento das vicinais da ligação Juara-Juruena, com Juara-Paranorte. Quando saía, escutei alguém gritar:

– Êeeeeh Rondonópolis!

Era Zé Ambrolino em carne e osso. Cumprimentamo-nos, conversamos rapidamente e ele levou-me ao seu rancho, distante dali cerca de 10 quilômetros. Fui recebido com alegria, e apesar da pressa para vencer quase 150 quilômetros de atoleiros até Juara, demorei-me por mais de duas horas com a família do meu conterrâneo rondonopolitano e não peguei a estrada sem antes comer duas pratadas de frango caipira com quiabo, com direito a uma branquinha, para limpar a goela.

Com os olhos brilhando de alegria, Zé Ambrolino mostrou-me uma horta no fundo do quintal do barraco simples e de limpeza sem igual. Levou-me a uma lavoura de café, de um hectare, que está produzindo há mais de dois anos. Chamou pelos nomes a Malhada, a Laranjinha e a Destreza, as vacas cruzadas paridas, por ele compradas com recursos do Procera.

E numa cobertura de palha ao lado da cozinha exibiu com orgulho a Beleza com uma ninhada de oito filhotes crescidos.

O barraco para o lar da família, a mesa farta, a horta, a lavoura e as vacas me mostraram um Zé Ambrolino feliz. Mas, ainda assim, notei uma ponta de saudade escondida sob a capa da vitória daquele homem que foi engraxate e sem-terra, e que saiu do nada para se tornar sitiante parceleiro nos confins da Amazônia.

Já estava no carro para sair e Zé Ambrolino pediu-me para esperar um instante. Fiquei conversando com a Rosa e os filhos deles. Sem demorar, voltou com um filhote da Beleza nos braços:

– Leva, é seu. É lembrança de coração. Bota nome nele de Rondonópolis…

Peguei o filhote vira-lata e não tive palavras para agradecer o presente. Intimamente fiquei frustrado com a dureza e a insensibilidade do governo por não permitir que o homem viva onde nasceu e gostaria de ficar para sempre. Buzinei duas vezes, afaguei o Rondonópolis, acenei e peguei a estrada.

Tico, Teca e Mila, no meu exílio voluntário na ensolarada Cuiabá, ganharam um companheiro a mais para latir a sina de quem faz da terra estranho o seu torrão adotivo.

– Êeeeeh Rondonópolis, digo eu.

(Extraído do livro “Dois dedos de prosa em silêncio – pra rir, refletir e arguir”, publicado em 2015)

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