Não conheci Coutinho, mas eles me contaram quem foi o craque

Era difícil entrevistar Coutinho. Assim como não era fácil marcar Coutinho. Tinham me alertado: cuidado, garoto. Ele não gosta muito de falar com a imprensa. Liguei para o eterno nove da Vila quando Carlos Alberto morreu. Ele respondeu atravessado já na primeira pergunta: “é cada coisa que vocês querem saber”. A conversa durou uns cinco minutos. Ele cortou como quem dribla o beque infeliz que não tem a categoria do craque. Menosprezou feito o centroavante vendo o goleiro caído no chão e o gol aberto. Eu entendo. E mais do que isso: aceito. Me despedi e desliguei.

Leia também: Diferente do padrão, Corinthians e Santos foi um grande jogo em Itaquera


Coutinho, ídolo do Santos, é o tema da coluna desta semana no 'De bico com Cimatti'
Arquivo iG Esporte

Coutinho, ídolo do Santos, é o tema da coluna desta semana no ‘De bico com Cimatti’

Deve ter sido difícil marcar Coutinho. Não sair do cangote do gênio quando Pelé recebia. E passava pelo adversário. E tocava para o artilheiro. E ainda tinha o Mengálvio, o Pepe e uma constelação que ainda joga sempre nos sonhos de quem viu tanto talento. É o ataque mais escalado da história do futebol. Coutinho é a ponta dele. O fim dele. O que sei é o que pesquisei, ouvi e pouco pude assistir em VT. Hoje o drible está em extinção no Brasil. Assim como a finalização fraca e pontual no canto do gol. Rasteira e inapelável. Característica de Coutinho.

Queria ter visto Coutinho dentro da área. Com os olhos saltados esperando o toque. Queria ter ouvido o mais corneteiro dizer que o gênio estava acima do peso. Queria já ser gente quando Coutinho era um menino de quatorze anos e vestia o uniforme profissional santista. Queria acreditar que aquele moleque seria o atacante da seleção. Queria ter lamentado sua lesão na Copa de 1962. E queria ter torcido por Amarildo assim como Nelson Rodrigues. O Possesso. Queria ter apelidado o botafoguense de Possesso. Acompanhado os títulos de 58, de 62 e de 70.

Nem meu pai teve essa felicidade. Ele se lembrava só do mundial de 70. De Tostão apontando. De Pelé rolando. De Carlos Alberto voando até a bola e fuzilando com o pé direito. Queria ter visto o sorriso do meu pai neste instante. Eu que seria o sorriso dele quase que exatamente 20 anos depois daquilo, quando nasci. Aquela geração foi o motivo do sorriso de muitos que não estão mais aqui. Meu pai, por exemplo. Que viu dribles, gols e vitórias do Palmeiras dele até setembro de 2007. E não pôde ver o filho dele conversar com Coutinho na Rádio Bandeirantes .

Leia também: Técnicos brasileiros acham que futebol é receita de bolo e causam dor de barriga

Ou falar sobre Coutinho. E sobre tanta coisa que ele poderia ter falado até hoje.

Minha voz só é ouvida aqui por causa dele. Queria ter perguntado para o meu pai mais sobre o Carlos Alberto. Sobre a modernidade do lateral que marcava, mas também atacava. Ou para meus avôs quem era Coutinho. Queria ter passado mais tardes nos braços deles assistindo filmes que o tempo não me deixou ver. Vendo jogos que os anos não me permitiram. Comparando craques. Imaginando cenas que eles descreviam com o mesmo carinho que Coutinho tinha pelo gol.

Não vi Coutinho jogar. Mas conheci Coutinho por ter convivido com eles.

A hora não é de perguntar como fiz naquela tarde para o gênio, quando Carlos Alberto morreu. Perguntar onde eles estão, como estão, por que estão lá agora.

Coutinho não morreu. Seu jeito está gravado na minha imaginação. Naquelas conversas da hora do almoço.

Leia também: O Palmeiras de Felipão parece cantor sertanejo: ama sofrer

E elas são parte de mim. Coutinho é boa parte do futebol brasileiro.

Fonte: IG Esportes
Comentários Facebook