Oito em cada dez brasileiros fazem automedicação, aponta pesquisa


'Não conhecer os efeitos colaterais do remédio usado sem prescrição é um dos riscos da automedicação', diz especialista
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‘Não conhecer os efeitos colaterais do remédio usado sem prescrição é um dos riscos da automedicação’, diz especialista

Uma dor no abdômen que nunca havia sentido antes deixou o bancário Rafael de Souza, de 28 anos, preocupado e sem dormir durante toda a noite. Sem saber o que era, ele escreveu o sintoma no buscador online, escolheu a condição que mais se assemelhava com o que ele sentia e tomou o remédio indicado pelo Google para “cólica intestinal”. Rafael não teve nenhuma orientação médica antes de tomar o medicamento, mas ele não é o único exposto aos riscos da automedicação: 8 em cada 10 brasileiros que admitem tomar remédio sem prescrição médica.

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O dado é da pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ)  e mostra que 79% das pessoas com mais de 16 anos se expõem aos riscos da automedicação . O número é o maior desde que a pesquisa passou a ser realizada, em 2014, quando 76,2% revelaram que já haviam adotado a prática

“Os perigos da automedicação são os efeitos adversos que os remédios podem causar. Tanto interações medicamentosas com outros remédios, como os efeitos colaterais provocados pelos próprios remédios”, afirma Fausto Nakandari, otorrino do Hospital Sírio Libanês.

“Muitas vezes, a pessoa que indicou o remédio não é médica e isso pode levar a um desconhecimento dos efeitos colaterais dos remédios. Por outro lado, o médico especialista está acostumado a manejar aquele tipo de remédio e por isso oferece mais conhecimento e mais segurança na hora de prescrevê-lo”, completou.

De acordo com Jeany Andrade Silva, farmacêutica da Rede Compre Certo, a automedicação é considerada um problema de saúde pública e o uso de forma incorreta pode acarretar no agravamento de algumas doenças.

“Alguns medicamentos, quando usados de forma inadequada, podem inclusive esconder determinados sintomas, diminuindo as chances de um médico diagnosticar corretamente determinadas doenças”, explica.

A profissional ainda alerta que a atenção deve ser redobrada caso o medicamento seja um antibiótico. “Se ministrados de forma incorreta e sem a indicação, podem, inclusive, aumentar a resistência dos microorganismos e compromete a eficácia do tratamento”.

Para realizar a pesquisa, o instituto entrevistou 2.126 pessoas com mais de 16 anos em 129 municípios das cinco regiões do Brasil no mês de setembro.

Entre os sintomas que mais levam o brasileiro a tomar remédios por conta própria são dor de cabeça, febre, resfriado e dor musculares.

Os adultos de idades entre 25 e 34 anos são os que mais recorrem às drogas sem prescrição médica : 91% deles admitiram fazer automedicação.

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Riscos da automedicação também afeta crianças


Riscos da automedicação incluem intoxicação, aponta entidade farmacêutica; crianças também são atingidas
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Riscos da automedicação incluem intoxicação, aponta entidade farmacêutica; crianças também são atingidas

Para estimular o consumo consciente de remédios, em todo o país, conselhos de farmácias e redes farmacêuticas estão participando de campanhas para orientar e incentivar a população sobre o uso adequado de medicamentos.

A importância dessa ação é vista diante dos dados que revelam que a cada hora, três pessoas se intoxicam com medicamentos no Brasil. Os mais atingidos são as crianças, sendo 38,19% dos casos.

Em números absolutos, apenas em 2012 o Sistema Nacional de Informações Toxicológicas contabilizou 27 mil pessoas envenenadas com remédios em todo o território nacional. Esse tipo de intoxicação representa um terço de todas as causas registradas no sistema, sendo o principal motivo por intoxicação no país.

Entre as crianças, as circunstâncias mais comuns que levam a essa reação é a ingestão acidental do remédio ou erros de administração, muitas vezes causados pelos pais sem orientação médica adequada.

O vice-presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF) Valmir de Santi fala da urgência em aprimorar a maneira como os medicamentos são distribuídos, dispensados, administrados e utilizados. “Reduzir o uso de medicamentos sem a devida orientação profissional, ou seja, a automedicação , é apenas uma das frentes desse trabalho. Temos inúmeros outros problemas a resolver”, afirmou ele.

O representante do CFF ainda acrescentou que apenas a prescrição médica não garante o uso correto do produto. “É importante para a redução de danos e o sucesso do tratamento que as pessoas consultem o farmacêutico para se inteirar sobre a melhor forma de utilização dos medicamentos, a identificação de eventuais problemas relacionados ao seu uso e o monitoramento do sucesso do tratamento”, completou Santi.

A OMS revelou que pelo menos metade de todos os remédios consumidos são incorretamente prescritos, dispensados e vendidos. Além disso, mais da metade dos pacientes fazem o uso dos produtos de maneira incorreta.

Depois de aprovada, a Lei 13.021/2014 torna as farmácias em unidades de prestação de serviço de assistência à saúde, e não mais apenas estabelecimentos comerciais. Portanto, ao visitar um desses locais, não é preciso se sentir intimidado em perguntar sobre o uso adequado de medicamentos, quais as reações, perigos da automedicação, possibilidade de tomar em jejum, problemas se tomar fazendo uso de outros medicamentos, riscos da superdosagem ou subdosagem e, até mesmo, como fazer o descarte adequado do produto.

O presidente executivo da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sergio Mena Barreto explica um dos motivos que podem levar à intoxicação de medicamentos. “A gente tem uma barreira natural que é a barreira do entendimento do paciente. Seja porque é pequeno o tempo com o médico, seja porque o paciente tem vergonha de perguntar. Isso facilita uma série de coisas que podem levar à intoxicação.”

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Barreto também fala que o farmacêutico é responsável por orientar o cliente e explicar como deve ser ministrado o medicamento. O profissional deve também incentivar a leitura da bula, que traz importantes informações sobre os medicamentos para o paciente e tentar combater o uso de remédios sem prescrição, alertando sobre os riscos da automedicação .

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