Quem sabe faz a hora

Por Robson Fraga

– Ah, eu até queria a vaga, mas moro longe…

– Onde?

– Uns cinco quilômetros daí.

– Só isso? Rapaz dá pra vir a pé!

– É… Mas eu teria que sair de casa bem mais cedo…

Assim terminavam as explicações daquele que durante uma semana tinha tomado o tempo de um contratante em busca de vaga. O candidato tinha feito de tudo pra conseguir uma entrevista, mas na hora H… Numa das conversas, chegou a pedir “por favor”, sob a alegação de que era arrimo de família.

– Seu Victor, me deixe fazer o teste. Preciso trabalhar, sou eu quem sustento minha mãe e ajudo a criar dois irmãos. Estou desempregado há quase um ano, vivendo de bicos. Deixa eu tentar, por favor?

Não dava mesmo pra entender. Todos os dias os noticiários contavam da crise econômica e dos milhões de brasileiros desempregados. Gente diplomada tentando vagas em outras áreas, abaixo de suas qualificações, e aquele cidadão se dando ao desfrute.

Era 2016. O setor das comunicações estava “numa crise daquelas” e, ainda assim, uma emissora paulistana tentava a todo custo contratar jornalistas. Tinha colocado anúncios em jornais, carros de som e nas redes sociais. Um deles dizia: “Vaga para jornalista, mesmo sem experiência. Salário de R$ 3 mil + benefícios. Jornada de 30h semanais”. Mesmo assim, não aparecia ninguém. Intrigado, o diretor de jornalismo se perguntava o que estava acontecendo. Naquela ocasião a oportunidade era “uma bocada”!

Por muitas vezes, Victor se pegava pensando em sua própria história. Aos dezoito anos, ele saía de casa às 4h30 da matina e só retornava por volta da meia-noite. Servia à Marinha do Brasil e cursava jornalismo numa universidade distante do local de trabalho e de sua casa. Passava mais tempo no trânsito e nos seus afazeres que com a família. Não tinha tempo nem pra namorar! Um dia, perguntado pelo patrão do porquê da vaga ainda está em aberto, respondeu:

– Sabe doutor, quando era jovem, acordava muito cedo. Engolia o café da manhã e partia pro ponto de ônibus pra não perder a condução e correr o risco de ficar preso no quartel: o horário era rígido! Morava em Nova Iguaçu, servia na Ilha do Governador e estudava em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Atento, Chagas ouvia aquele testemunho.

– De casa ao quartel eram 35 quilômetros. De lá pra faculdade outros 38 e de volta pra casa 57,6 contatos! Percorria todos os dias 261 quilômetros entre idas e vidas, trocando de coletivos, pra tentar ganhar a vida e sem reclamar.

-Nossa!

– Não foi fácil chegar até aqui. Ai me vem um cidadão suplicando emprego com toda aquela conversa triste e no dia da entrevista liga dizendo que não tem mais interesse na vaga porque a empresa é longe demais… Ora bolas, de bicicleta ele levaria cerca de dez minutos de casa até aqui. A pé no máximo 40, andando a passos de tartaruga!

No fim da conversa, Chagas não sabia o que dizer, mas começou a olhar diferente para aquele funcionário. Estava diante de um profissional que depois de ter passado por toda esta dificuldade ainda estava a mais de 700 quilômetros de sua família pra fazer valer seu diploma e ajudar a levantar o jornalismo da empresa.

Quando voltou pra casa não perdeu tempo. Antes que o filho abrisse a boca pra reclamar mais uma vez de ter que acordar cedo pra estudar foi enfático.

– Júnior, meu filho, agora que já jantou escove os dentes e cama!

– Mas, pai… Não quero ir pra escola amanhã, tô cansado!

– Se você quiser ser alguém, meu filho, vai ter que aprender a se esforçar. A vida é feita de dificuldades, meu caro, e pra tudo tem um preço. Trata de ir pra cama e agradecer por ter uma família que te dá casa, comida, educação e escola sem que você precise mover uma palha pra tudo isso. Eu não estarei aqui pra sempre, Junior.

– Mas pai…

– Vai pra cama, meu filho. Estude e aproveite todas oportunidades da vida. Amanhã, quando for adulto, pai de família, um homem de verdade, vai me agradecer e poderá ser um exemplo para seus filhos.

No dia seguinte, o empresário voltou ao labuta certo de que logo a vaga seria preenchida, já que havia escolhido um gestor que sabia o valor que o trabalho tem para um homem.

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