Salmonella apresenta resistência a diferentes antibióticos, mostra pesquisa


Resistência aos antibióticos é percebida na maioria das 90 amostras analisadas por pesquisadoras da USP
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Resistência aos antibióticos é percebida na maioria das 90 amostras analisadas por pesquisadoras da USP

Temida, a salmonella é um tipo de bactéria que pode causar infecções intestinais sérias e perigosas à saúde. É ainda capaz de se espalhar rapidamente para outros órgãos, causando febre tifóide, e até levar à morte. Agora, um novo estudo mostrou que a salmonella apresentou resistencia aos antibióticos disponíveis, o que deve alertar as autoridades sanitárias.

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A notícia vem de um trabalho realizado por pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), que sequenciaram o genoma da bactéria salmonella e descobriram que ela tem resistência aos antibióticos de diferentes classes – pelo menos de acordo com a maioria das 90 amostras analisadas.

As amostras foram isoladas entre 1983 e 2013 no Instituto Adolfo Lutz de Ribeirão Preto, e na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro.

O Ministério da Saúde informa que a salmonella é a bactéria mais frequente nos surtos de infecções alimentares, diarreias e gastroenterites. Ela representa a causa de 14,4% dos quase 220 mil casos entre 2000 e 2015.

O trabalho encontrou a presença do gene que indica resistência no genoma da bactéria. Amanda Aparecida Seribelli, doutoranda do Programa de Biociências e Biotecnologia, afirmou que o desenvolvimento da resistência em si vai depender de outros fatores.

“Isso significa que aquela informação pode ser expressa numa proteína e aí ela é resistente, mas depende do meio em que ela vai estar. Dependendo do hospedeiro, ela pode expressar ou não”, explicou.

De acordo com as pesquisadoras, elas fornecem um retrato da epidemiologia de salmonelose no Brasil nos últimos 30 anos, pois são provenientes de todas as regiões do país, tendo sido coletadas em pacientes acometidos por infecções alimentares ou em alimentos contaminados, como carne aviária e carne suína, incluindo embutidos, ou em vegetais, como alface, entre outros.

Resistência aos antibióticos foi dividida em graus


O estudo definiu o grau de resistência aos antibióticos de cada uma das 90 amostras
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O estudo definiu o grau de resistência aos antibióticos de cada uma das 90 amostras

A pesquisa foi desenvolvida com uma sorovariedade (variantes dentro de uma mesma espécie) da Salmonella enterica, chamada Salmonella Typhimurium.

A espécie enterica é a maior responsável pelos casos de infecção alimentar no Brasil e no mundo. A Salmonella Enteritidis é o outro tipo mais comum da bactéria, que se disseminou a partir de uma pandemia iniciada na Europa nos anos 1990.

No mesmo laboratório de Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas da FCFRP, é desenvolvida uma outra pesquisa estudando o sequenciamento e análise de amostras da sorovariedade S. Enteritidis .

O sequenciamento foi feito no Food and Drug Administration (FDA), a agência federal norte-americana responsável pela fiscalização da qualidade de alimentos e medicamentos nos Estados Unidos.

“O genoma completo é uma técnica muito cara ainda, então o nosso grupo de pesquisa e o nosso país acaba tendo mais dificuldade de fazer esse tipo de pesquisa aqui”, disse.

O genoma de S. Typhimurium tem 4,7 milhões de pares de base. Somando os dados das 90 amostras, são 423 milhões de bases. A pesquisa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp).

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O estudo definiu o grau de resistência aos antibióticos de cada uma das 90 amostras. De acordo com os resultados, 65 (72,2%) das 90 amostras de S. Typhimurium se mostraram resistentes aos antibióticos da classe das sulfonamidas, 44 (48,9%) eram resistentes à estreptomicina, 27 (30%) à tetraciclina, 21 (23,3%) a gentamicina e sete (7,8%) as cefalosporinas.

“Chama a atenção a resistência de S. Typhimurium a antibióticos que podem ser utilizados no tratamento da doença. São drogas que estão à disposição dos médicos para o combate a infecções que apresentam resistência. São a segunda linha de defesa, quando os microrganismos não são mortos pelo sistema imunológico do paciente, uma vez que normalmente a salmonelose é uma doença autolimitada e que não precisa do uso de antibióticos. O maior problema é quando isso falha e a bactéria torna-se invasiva”, apontou Seribelli.

Como a salmonella pode afetar a saúde?


Lavar as mãos é uma das medidas para evitar a contaminação com salmonella; bactéria tem resistência aos antibióticos
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Lavar as mãos é uma das medidas para evitar a contaminação com salmonella; bactéria tem resistência aos antibióticos

Geralmente quem está com alguma infecção gastroenterite causada pela bactéria apresenta sintomas como diarreia constante, fezes com sangue, dor abdominal ou cólicas frequentes, enjoos e vômitos, mal estar geral, fadiga, febre abaixo de 38º C e perda de apetite.

Os sintomas costumam aparecer até 10 dias depois do consumo do alimento contaminado e devem durar por aproximadamente 5 a 7 dias, até que o paciente esteja completamente recuperado. Essas características também podem variar de intensidade de acordo com a quantidade de alimento contaminado ingerido e o nível de contaminação do alimento.

Mas, apesar de relatar os sintomas ao médico, a única forma de confirmar que a infecção está sendo causada pela salmonella é por meio do exame de fezes. Isso porque é lá que é possível identificar quais as bactérias estão presentes no organismo do indivíduo.

Ao receber o diagnóstico confirmado da condição causada pela salmonella, o tratamento pode ser feito com o uso de antibióticos, além de beber bastante líquido para manter a hidratação e controlar os sintomas da doença.

Cuidados com a higiene são fundamentais para evitar a contaminação pela bactéria. Veja algumas dicas:

  • Lave as mãos com frequência,  principalmente
    antes de se alimentar ou preparar alguma refeição;

  • Evite consumir alimentos que sejam à base de carne crua ou mal passada – isso inclui até mesmo os industrializados;
  • Tenha bastante atenção com o preparo e cozimento da carne de frango e galinha;
  • Tenha cuidado com os ovos, que devem ser bem cozidos. Lembre-se de que pratos como a maionese feita em casa, por exemplo, incluem a adição de ovos crus como ingrediente e são grandes transmissores de salmonelose;
  • Beba só leite pasteurizado ou fervido;
  • Lave bem verduras, legumes e frutas. Deixe-os mergulhados em água com hipoclorito de sódio ou uma colher de chá de água sanitária;
  • Lave bem os utensílios de cozinha, especialmente quando usados na preparação de carnes cruas;
  • Mantenha ovos sob refrigeração.

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A pesquisadora lembra que entre medidas necessárias para impedir o desenvolvimento de bactérias que apresentem resistência aos antibióticos está o controle na venda de antibióticos. No caso da salmonella, a prevenção é o tratamento sanitário adequado de alimentos.

*Com informações da Agência Brasil

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