“A gente é muito mal-tratada”: doméstica relata cotidiano durante a pandemia


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Uma conversa de Whatsapp entre uma trabalhadora doméstica e sua patroa viralizou ao ser publicado na página do Instagram “Mídia Ninja”. Com mais de 100 mil curtidas, ela indignou os internautas, que levantaram o debate sobre a condição de trabalho das trabalhadoras domésticas no Brasil e o abuso que ainda sofrem.

Várias são as violências diárias que essas mulheres, como racismo, assédio moral e sexual, desvalorização de suas atividades e do valor de seu trabalho, além de salários muito baixos. Ana* é trabalhadora doméstica e contou ao Delas alguns relatos de abusos que já sofreu. Ela também conta como ficou a situação durante a pandemia.


Assédio

Ana conta que um dos momentos mais humilhantes e assustadores que viveu como trabalhadora doméstica foi um assédio. “O marido da minha patroa da época sempre ficava me encarando, onde quer que eu fosse limpar. Vinha sempre com brincadeirinhas e com sorrisinhos estranhos”. Um dia, quando a patroa não estava em casa, o homem achou-se no direito de abusar de Ana.

“Fui buscar uns produtos de limpeza e ele foi atrás. Quando eu abaixei para pegar tudo, ele me agarrou por trás, pegou nas minhas partes íntimas e ficou tentando tirar a minha roupa”, conta. Ana disse que ficou desesperada, começou a chorar e foi aí que o homem ofereceu dinheiro à ela. “Me senti muito humilhada só abandonei tudo e fui correndo para casa”.

A trabalhadora diz que ficou com medo de contar sobre o ocorrido e que inventou que teve uma emergência em casa. “Nunca mais voltei. Minha irmã disse para eu ir lá e deixar o celular gravando para ter uma prova. Mas com que coragem eu ia de novo?”, desabafa. Ela diz sentir-se impotente contra os patrões e que não seria protegida pela justiça. Além do mais, também é um caso onde é a palavra de uma mulher contra a de um homem.

Abusos morais

“Eu estou pagando e você precisa. A casa é minha, a regra é minha, eu faço o que eu quiser aqui dentro”. Era essa a fala que Ana ouvia de sua última patroa, quem deixou há 3 meses. De acordo com a trabalhadora, a mulher não tinha firulas e falava tudo em sua cara, com o propósito causar humilhação. “Meu filho me via chegar chorando em casa todos os dias”, conta.

A ex patroa está sendo processada por agressão física a uma antiga funcionária, que levou um tapa na cara. Ana conta que só continuava na casa porque não tinha outra escolha, mas acabou saindo de lá mesmo sem garantias. “Era isso ou a minha saúde mental, meu psicológico já estava muito abalado”, relata.

Ela diz ainda que a mulher fiscalizava seu trabalho a todo momento e proferia frases como “você está muito lerda”, “faz tudo mal feito”, “eu faria melhor do que você”. Críticas ao físico de Ana, como ao seu cabelo, roupas e até mesmo a fala também eram feitas. “A gente é muito mal-tratada, como se fosse bicho e não ser humano”.

Exploração

“A gente não tem horário para comer, para ir embora, trabalha das 8 da manhã até 8 da noite. Até o tempo que você bebe água é contado”. Ana conta que a exploração no meio é gigante e que muitas vezes já passou de 12 horas trabalhando, sem nem ter direito a pausa para almoço e intervalos. “Eles querem que a gente faça mil e uma coisas no mesmo dia, sabe? Não tem noção”, afirma.

A trabalhadora doméstica acredita que seu caso é um exemplo para o que acontece com a maior parte, senão todas as trabalhadoras domésticas do Brasil. Um trabalho muito desvalorizado, ela acredita que são poucos os avanços dados para melhorar a situação.

“Acredito que deveria haver uma maior fiscalização no nosso ambiente trabalho, fiscais que monitorariam o que estamos fazendo, como estamos sendo tratadas, e se cumprimos a carga horária estabelecida”. 

Impactos na pandemia

Um estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), faz um alerta para a vulnerabilidade de trabalhadoras domésticas durante a pandemia de Covid-19.

Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), destacam que existem cerca de 5,7 milhões trabalhadoras domésticas no país, das quais 3,9 milhões são negras. A maioria  A maioria não possui Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) assinada. Isso significa que trabalham na informalidade e sem a cobertura de direitos importantes, como o acesso a 13º salário, seguro-desemprego, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a benefícios previdenciários.

Ana afirma que durante a pandemia, a exploração aumentou ainda mais. O salário diminuiu, por conta dos impactos econômicos causados nos patrões. Com mais gente em casa, os trabalhos diários dobraram. “Eles ficavam mais na casa, faziam festas, me fiscalizavam mais e acabavam pagando menos”, conta.

Hoje Ana sobrevive apenas com o Auxílio Emergencial fornecido pelo governo e busca por um novo local, onde seja bem acolhida. Contudo, com a pandemia as ofertas de trabalho diminuíram, agravando a situação desta categoria de trabalhadoras.

Fonte: IG Mulher

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