Como não ser mais pária do mundo

“Ninguém conversa com um pária”. E esse pária, amigos, somos nós, Brasil, no contexto internacional. Triste ouvir isso, mas o impacto da palavra – que indica aquele que está à margem da sociedade ou foi excluído do convívio social – é necessário para chamar a atenção e permitir que, de fato, escutemos o que está sendo dito.

Marcos Jank, professor do Insper, sabe bem do que falou durante o 10º Fórum Lide de Agronegócios, realizado no dia 23 de setembro. Além de acadêmico, professor e autor, foi executivo de uma entidade de classe do setor agroindustrial e desde então se firmou como voz digna de ser ouvida quando os temas passam por economia, agro, comércio exterior, Ásia e, agora, comunicação.

Somos, hoje, um pária porque nossa imagem está carcomida lá fora por questões ambientais, principalmente, mas essencialmente pela nossa inabilidade de conversamos sobre isso – ou, mais recentemente, sobre qualquer coisa. E, por mais que eu saiba, por dever de ofício, que há muito engano e desinformação em muitos dos conteúdos estrangeiros, há um fato aqui. Nossa imagem é de uma nação que não cuida de seus recursos naturais.

Grande parte do segmento agro sabe como produzir com menos impacto ambiental. Não sem impacto, porque isso é utopia, mas com menos. Muito está sendo investido em tecnologia e ciência, principalmente em Mato Grosso. E algumas das soluções geram resultados tão positivos que é até difícil comunicar, porque muitos não acreditarão que empresas de larga escala estão reduzindo o uso de químicos e adotando mais e mais defensivos biológicos. E que isso funciona!

Como falar sobre algo tão legal, se não somos nem chamados para a conversa? Somos párias, lembram? A falta de jeito de comunicar do Brasil, como nação, inviabiliza qualquer tentativa de mostrar que o agro brasileiro sabe o que fazer para superar os problemas ambientais que o exterior enxerga no País.

E como não conseguimos participar do verdadeiro diálogo mundial, o que fazer, senão ir para o quintal do vizinho? O que resta senão falar mal do outro no Whatsapp? Trocar números e argumentos científicos nesses ambientes não surtem nenhum efeito, assim como partir para o conflito.

“Não adianta brigar. O que o mundo quer saber é por que ainda há desmate ilegal. É disso que precisamos falar. Mas quem está mostrando o que podemos fazer ou o que o agro já faz para o mundo? Não somos nós. Porque com o pária não se conversa, não tem diálogo. Precisamos mudar isso para conseguirmos mudar qualquer coisa”, sentenciou Jank.

Com a calma de quem vive na pele a situação de ser o pária sabendo que não o é, de fato, mas compreendendo porque aparenta ser e por que não tão cedo deixará de sê-lo, o ex-presidente da Unica dá uma aula de teoria (filosofia?) da comunicação sem ter essa pretensão. Porque ao sentenciar o Brasil ao papel de pária e lembrar a todos que “ninguém conversa com um pária”, Jank cria a ponte para lembrarmos que a possibilidade do diálogo (e da comunicação) nasce quando há um mínimo de conexão, de igualdade, de respeito na relação entre um e outro.

Afinal, é muito raro que eu dê atenção e realmente escute alguém que considero fora do meu contexto; alguém que seja muito diferente ou marginal à realidade que eu vivo (o pária). Geralmente, ouvimos e abrimos nossa mente para a possibilidade de um diálogo quando a outra pessoa já é conhecida, quando intuímos que temos algo a aprender ou a trocar com ela.

Algo ‘positivo’, digamos assim, deve existir previamente para que eu aceite parar minha existência e dedicar meus segundos/minutos para essa tentativa de conversa. (E, sim, isso é algo tão intuitivo e da ordem dos afetos, que raramente racionalizamos sobre, mas se dá todos os dias, a toda hora.)

Martin Buber, filósofo austríaco e israelense, nos ensinou que há um diálogo Eu-Tu, que é quando um ambiente de conexão se instala na relação de comunicação, e um diálogo Eu-Isso, quando essa relação se torna desigual. O sujeito, a outra pessoa com quem falo, passa a ser um objeto nesse momento, ou vice-versa, e ploft: desfaz-se o verdadeiro diálogo. Aquela conversa ou encontro se torna qualquer outra coisa – sinalização, troca de informações – mas deixa de ser comunicação.

Há vários outros motivos, mas apelo ao instinto de sobrevivência que existe em todos nós e escolho a necessidade econômica de mantermos relações comerciais com o mundo como o argumento que consolida a importância de nos comunicarmos com outros países de forma séria. Algo plenamente possível e nada inédito. Sabemos como fazer, mas é preciso agir. Jank, no fórum de ontem, generosamente sugeriu um caminho das pedras.

“Precisamos sair do autoelogio, de que somos os mais produtivos, sair da resposta chapa branca, e ir para a resposta científica. Toda semana tem um novo estudo em inglês sobre o Brasil que têm repercussão e pauta o mundo. Gostemos ou não, é assim que funciona. Mas o que ocorre? Ficamos em nossos grupos de Whatsapp dizendo que os números estão errados, mas, veja, nada disso importa”, contextualiza.

Além da aposta séria em uma comunicação pautada em dados científicos, pesquisa e tecnologia, é preciso literalmente falar na língua do outro. “Nós, da iniciativa privada, temos que nos comunicar em inglês e com base na ciência”, lembra ele, reforçando o óbvio, mas necessário nos dias atuais.

Colocar em prática as sugestões de Jank não é um trabalho de Hércules. De minha experiência profissional, acompanhando desde 2007 entidades de terceiro setor e empresas do agro em Mato Grosso, ouso dizer que é possível, viável e traz resultado. Existem iniciativas em curso, entre clientes e não clientes, que já estão colhendo os primeiros frutos de boas sementes plantadas, mesmo que em solo não muito fértil.

É que na comunicação, assim como na agricultura, estratégia, foco e persistência, além dos olhos abertos à inovação, são fundamentais. Mas o essencial, mesmo, é estar disposto a dialogar com respeito, seriedade e profissionalismo: essa é a semeadura. Só assim, gente amiga, pra deixarmos de ser o pária dos dias atuais.

Camila Bini é jornalista e comunicadora em Cuiabá.

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