Como se proteger de spray sedativo no carro? Toxicologista explica

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Motorista de aplicativo foi acusado de dopar passageira com spray
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Motorista de aplicativo foi acusado de dopar passageira com spray

Nesta quarta-feira (11), um motorista de aplicativo foi acusado nas redes sociais de ter dopado uma passageira durante a corrida , em São Paulo. A mulher teria começado a sentir tonturas e a visão embaçada depois de sentir um forte cheiro. 

Casos semelhantes têm sido relatados em diversos estados do país e preocupam pessoas que utilizam recorrentemente os serviços para se locomover. 

Ao GLOBO, o toxicologista Raphael Garcia, professor do setor de Bioquímica, Farmacologia e Toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explicou como atua o efeito sedativo pela inalação e recomendou maneiras de se proteger dessas situações.

Os relatos publicados nas redes e denunciados à polícia sugerem que motoristas têm utilizado formas como sprays ou substâncias dissolvidas no ar condicionado como métodos para levar a passageira ao estado de inconsciência.

“A via inalatória normalmente é mais rápida porque quando a pessoa inala, a substância atinge o pulmão muito facilmente e então pode passar para a corrente sanguínea e atingir outros tecidos, como nosso cérebro, onde atua o processo de sedação. É uma absorção muito rápida”, explica Garcia.

Por isso, o toxicologista ressalta que as principais medidas para se proteger de possíveis formas de sedação involuntária envolvem práticas para evitar a concentração de substâncias no interior do veículo.

“Então, de preferência, sempre viajar com as janelas abertas e com o uso de máscaras. Por mais que a proteção facial não proteja 100% desses vapores, acaba sendo uma barreira para diminuir os riscos de intoxicação”, recomenda o especialista.

As janelas abertas são extremamente importantes pois promovem a ventilação do ambiente. Essa troca do ar permite que não haja a concentração de substâncias, e até mesmo de microrganismos infecciosos, como a Covid-19, dentro do veículo.

Garcia reforça ainda a importância de, em caso de sintomas, a vítima procurar imediatamente o atendimento médico, uma vez que não se sabe quais substâncias foram utilizadas e quais os maiores riscos envolvidos no processo. 

Algumas drogas, por exemplo, podem induzir a sedação em menos de 5 minutos e provocar um efeito que dura até uma hora.

“Você tem um mercado ilícito onde as pessoas conseguem acesso ao que chamamos de drogas facilitadoras de crime, mas essas pessoas também podem ter acesso a solventes produzidos comercialmente, utilizados por exemplo em mecânicas, laboratórios, que induzem o efeito. E até mesmo solventes que já foram utilizados no passado com propósito anestésico, como o clorofórmio, podem provocar arritmias e consequências mais graves, tendo risco ainda de ser fatal”, alerta o professor da Unifesp.

O toxicologista explica que a velocidade e a intensidade das consequências do ato criminoso no organismo dependem de fatores como a suscetibilidade da pessoa, a substância utilizada, a proximidade do passageiro com a fonte das partículas e a sua concentração.

“Em alguns casos a vítima pode manifestar sintomas já com baixas quantidades”, complementa o especialista.

Ele alerta também para a dificuldade que envolve os relatos sobre possíveis casos, uma vez que as substâncias provocam um esquecimento momentâneo do acontecimento, e muitas delas não são detectadas em exames pouco tempo após a inalação.

“Essas drogas além de induzir um grau de passividade na vítima, geram uma amnésia anterógrada, uma perda de memória da pessoa. Então ela não consegue lembrar o que aconteceu com ela durante aquele momento da exposição à substância, por exemplo. Quando ela de fato se lembra, pode ser tarde para relatar o crime. Porque dependendo da substância elas ficam por um tempo muito curto no organismo, então a gente não consegue mais detectar a substância nos exames de sangue ou de urina para confirmar se ela foi exposta ou não”, explica Garcia.


Em um caso recente, relatado no Rio de Janeiro, a Polícia Civil abriu um inquérito após uma engenheira denunciar que teria sido dopada durante uma corrida de aplicativo. 

Um laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) da Polícia Civil do Rio, no entanto, concluiu que o spray mencionado pela mulher que seria a fonte da substância sedativa continha álcool 70%. O motorista afirma que usava o líquido para higienização das mãos.

Garcia explica que o etanol, substância presente no álcool 70%, de fato tem propriedades sedativas, incluindo sendo utilizado em bebidas alcoólicas, mas que no geral seria necessária uma quantidade elevada para conseguir dopar uma pessoa.

“Você normalmente precisa de uma quantidade alta de álcool no organismo para que a pessoa tenha esse efeito. Depende também do quão suscetível é a pessoa, se ela não está habituada ao álcool ela pode sentir uma leve tontura quando exposta a uma concentração mais elevada do etanol”, afirma o toxicologista.

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Fonte: IG SAÚDE

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