Eles não sabem de nada!

Não é de hoje e muito menos será amanhã que a visão de estrangeiros sobre o que é o Brasil e quem somos nós, brasileiros, é distorcida. É claro, não é possível generalizar. Por isso mesmo focarei nas declarações do presidente da França, senhor Emmanuel Macron.

O chefe de estado francês associou nesta semana a soja produzida aqui no Brasil com o desmatamento da floresta amazônica. Macron sugeriu também que a própria Europa seria capaz de produzir a oleaginosa como uma alternativa à nossa soja.

Não sei definir o que me causa mais espanto: o presidente de um dos países europeus de maior economia naquele continente mostrando seu completo desconhecimento sobre o próprio mercado de importações ou o fato de ignorar que nossas leis ambientais são uma das mais rigorosas do mundo.

Vamos aos dados, senhor Macron. No bioma Amazônia há cerca de 2% de atividade agrícola e 10% de pecuária. Há a preservação deste bioma em um patamar infinitamente maior do que outros países, em especial os europeus, que colocam o dedo indicador em nosso rosto.

Há também a necessidade de se compreender o ilegal do legal. O produtor rural, legalizado na Amazônia, sabe que só poderá desmantar 20% de sua área. Assim, cerca de 89% dos produtores rurais na região operam abaixo de quatro módulos rurais, ou seja, são pequenos.

Das 530.000 propriedades agrícolas locais, menos de 4% são classificadas como “grandes”, ou seja, capazes de produzir milho ou soja, que o senhor Macron acusou de culpadas pela degradação ambiental na floresta.

Vale fazer um adendo de que a soja produzida na Amazônia é livre de desmatamento desde 2008. Sim, neste ano completam-se 13 anos da Moratória da Soja. A Moratória, iniciativa ampla e internacionalmente reconhecida, monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em áreas desmatadas, garantindo risco zero do envio de soja da área para mercados externos.

Também é necessário ressaltar que o Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo. Sim, do mundo, senhor Macron. Abastecemos mais de 50 países com grãos, farelo e óleo. E, adivinha? A França é um dos países que mais compram nosso farelo.

Além disso, nós detemos domínio tecnológico para dobrar a atual produção com sustentabilidade. Isso significa dizer que nossa produção pode aumentar – e muito – sem a necessidade de abrir mais áreas.

Conseguimos isso com base em estudos, pesquisas e prática no campo. Nossa produção tem algo chamado controle de origem. Nós temos seriedade e compromisso não apenas com nossos produtores, com o povo brasileiro como um todo, mas também com os países que compram nossos produtos.

Não chegamos neste patamar por acaso. Chegamos, sim, ao custo de muito suor e sangue de nossa gente. Lamento que este texto talvez não alcance o senhor presidente Emmanuel Macron. Mas deixo aqui registrado o convite para conhecer e entender nossa realidade. Quem sabe a partir de então o senhor possa parar de mostrar desconhecimento e ignorância, uma visão que é secular e já passou da hora de mudar.

Nelson Barbudo é deputado federal por Mato Grosso.

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