Jogo do futebol brasileiro com 2 árbitros em campo? Já aconteceu e foi sucesso

Alfredo dos Santos Loebeling%2C ex-juiz que apitou duas finais do Paulistão com arbitragem dupla arrow-options
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Alfredo dos Santos Loebeling, ex-juiz que apitou duas finais do Paulistão com arbitragem dupla

Um dos assuntos mais comentados do futebol brasileiro na atualidade é o árbitro de vídeo, o VAR , que, mesmo com intuito de diminuir os erros dentro de campo, vem causando polêmica por conta de decisões consideradas erradas por parte da equipe de arbitragem e o enorme tempo gasto com análise de lances.

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É inegável que o VAR ajuda. No passado, mais precisamente nos anos de 2000 e 2001, a FPF (Federação Paulista de Futebol) teve uma ideia que também tinha como objetivo aumentar o tempo de bola rolando e diminuir os equívocos dos juízes: colocar dois árbitros  nos jogos do Campeonato Paulista, um em cada metade de campo.

O ex-árbitro  Alfredo dos Santos Loebeling , que atualmente é consultor de arbitragem e fornece assessoria para clubes brasileiros, falou com o iG sobre a dupla arbitragem no Paulistão.

Ele, inclusive, apitou as duas finais nessas oportunidades. Na decisão de 2000, esteve ao lado de Ílson Honorato dos Santos no São Paulo x Santos; e em 2001, trabalhou com Edílson Pereira de Carvalho no Corinthians x Botafogo-SP.

Dois árbitros em campo na final do Paulistão de 2000 arrow-options
Reprodução / PFC

Dois árbitros em campo na final do Paulistão de 2000

“Os testes começaram em 1994. O primeiro teste foi justamente no dia da morte do Ayrton Senna, em 1º de maio de 1994, no Morumbi, no campeonato de aspirantes, num Palmeiras x São Paulo”, relembrou Loebeling.

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“Para a Fifa autorizar esse tipo de coisa em um campeonato inteiro, como foi nesse caso em dois anos seguidos, você tinha que apresentar dados. Então esses testes eram para mostrar que o tempo de bola em jogo aumentava e que a quantidade de faltas diminuía em função da presença dos dois árbitros mais próximos do lance”, continuou o ex-árbitro.

Os testes feitos pela FPF foram enviados para Fifa, que autorizou o uso de dois juízes em campo nos Paulistões de 2000 e 2001.

Alfredo dos Santos Loebeling trabalha atualmente como comentarista e consultor de arbitragem arrow-options
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Alfredo dos Santos Loebeling trabalha atualmente como comentarista e consultor de arbitragem

“Não tenha dúvida que o problema que tinha naquela época também tem agora, que é o tempo muito grande perdido de jogo. O cara vai no cinema e paga por 2 horas de filme. O cara vai no teatro e paga por 1 hora e meia de peça. No futebol, o cara paga por 90 minutos de jogo e recebe muito pouco”, disse.

“Então havia esse estudo de que o árbitro estando mais perto do lance, aconteceriam menos faltas e o jogo corria mais. A ideia era essa, agilizar as partidas. Tanto que nós aumentamos esse tempo e foi a maior média de bola em jogo nos estaduais naqueles dois anos”, comentou Alfredo Loebeling.

E deu muito certo

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Alfredo dos Santos Loebeling, ex-juiz que apitou duas finais do Paulistão com arbitragem dupla

Apesar de a dupla arbitragem ter sido usada em apenas duas edições de Campeonato Paulista, Loebeling garante que a novidade foi um sucesso. 

“Avaliação é mais do que positiva. Teve um aumento no tempo de jogo (de bola rolando) e também caiu o número de faltas. O zagueiro via que o juiz estava próximo e maneirava nas faltas. Como o cara vai reclamar do árbitro que está a 3 metro do lance? Além disso, em função da diminuição do número de faltas, aumentou o número de gols”, comentou.

E por que não seguiu para outros anos?

“Simples. Todas as ideias mandadas para Fifa foram do Eduardo José Farah (ex-presidente da Federação Paulista). E naquele ano de 2001, o Marco Polo Del Nero assumiu a FPF no lugar do Farah. E jamais o Del Nero iria dar continuidade num processo que saiu através do Farah. Jamais. O Farah saiu brigado com o Marco Polo e nunca iria acontecer”, admitou o ex-juiz.

“A ideia que se tinha é de que os dois árbitros não haviam dado certo aqui no Brasil. Mas muito pelo contrário. Deu certo, só não foi adiante em função da vaidade do Marco Polo Del Nero”, completou Alfredo Loebeling.

Conflito nas marcações dos dois árbitros

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TV Gazeta/Reprodução

Alfredo dos Santos Loebeling, ex-juiz que apitou duas finais do Paulistão com arbitragem dupla

E se os dois árbitros em campo tivessem interpretações diferentes nos lances, com divergências em suas marcações. Loebeling disse que tudo era feito com muito cuidado e profissionalismo por parte dos homens do apito.

“Era uma questão muito profissional, a Federação tomava muito cuidado. Quando via que uma dupla não foi bem, não repetia essa dupla. Cheguei a apitar com o mesmo árbitro umas três, quatro vezes”, lembrou.

Alfredo Loebeling contou também a dificuldade de trabalhar com a dupla arbitragem na final de 2001, já que ele não tinha uma boa relação com Edílson Pereira de Carvalho nos bastidores e, mesmo assim, tiveram que trabalhar juntos no Corinthians x Botafogo-SP, no Morumbi.

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“Na final de 2001, eu não falava com o Edílson Pereira de Carvalho, a gente não tinha uma relação boa. E a Federação escalou os dois para final. Eu pensei: ‘Pô, eu não falo com o cara fora de campo, não vou falar dentro de campo’. Mas a Federação exigiu que a gente fosse o máximo profissional possível”, destacou.

“Foi um jogo difícil porque a gente não conversava, mas a abitragem foi muito bem. Foi muito profissional, apesar da relação não ser boa. No caso de dois árbitros, acho que sempre tem que colocar duas pessoas com uma melhor empatia”, concluiu.

O VAR no Brasil

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Alfredo dos Santos Loebeling, ex-juiz que apitou duas finais do Paulistão com arbitragem dupla

Defensor da dupla arbitragem, Loebeling falou também sobre o árbitro de vídeo. “Sou a favor do VAR, não tenha dúvida, mas conforme protocolo da Fifa. Aqui criaram o ‘FrankVAR’, o VAR brasileiro, o Frankenstein do VAR, uma coisa própria contrária do que diz a Fifa”, avaliou.

“Aqui estamos mudando completamente o que a Fifa quer, e aí sou contra. Hoje está mais difícil. O que usamos aqui no Brasil não é o VAR da Fifa. Estamos usando em lance interpretativo, e não é esse o protocolo. Só se for um erro grosseiro, aí sim o VAR tem que intervir. Os árbitros estão se escondendo atrás do VAR. O vídeo tem que ter o mínimo de interferência”, comentou Loebeling.

Para o ex-árbitro, a VAR virou um “cabidão de emprego” dentro do futebol brasileiro, sendo que os clubes é que pagam por isso.

“São seis pessoas na cabine, mais quatro pessoas no campo, mais os técnicos de VAR. Isso em cada jogo. E aí viaja pelo Brasil inteiro, com passagem aérea, hospedagem, taxas… de uma maneira ou de outra, isso sai dos clubes e ninguém se manifesta”, finalizou Alfredo dos Santos Loebeling .

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