Morte à espreita

Por Jairo Pitolé Sant’Ana

Embora a gente pense ter visto (lido, escutado ou assistido a) muita coisa nesta vida, há sempre algo a nos assustar, quando paramos para analisar e refletir sobre alguns fatos do cotidiano. E quanto mais nos aprofundamos, mais constatamos que os brasileiros, apesar de tentarem nos convencer do contrário, não somos nada cordiais.

É o caso, por exemplo, do feminicídio no Brasil. Em 2013, foram assassinadas, no país, 4.762 mulheres – média diária de 13 homicídios diários ou 4,8 mortes violentas para cada grupo de 100 mil pessoas do sexo feminino. Somos o 5º país do mundo neste quesito, atrás apenas de três latino-americanos (El Salvador, Colômbia e Guatemala) e a Federação Russa.

Mesmo sendo uma grande mácula na imagem do país no exterior, estes números, infelizmente, são apenas a ponta do iceberg de uma catástrofe maior. Representam pouco mais de 10% do total de homicídios, com uso de arma de fogo, cometidos no país em 2014. Segundo o Mapa Violência de 2016, naquele ano, 44.861 pessoas perderam suas vidas por meio de armas de fogo – quase 133 mortos a cada dia.

A situação só vem se deteriorando. Entre 1980 e 2014, o número de mortes provocadas por armas de fogo cresceu 415,1% (contra 65% do aumento populacional), saindo de 6.104 para 44,8 mil mortes. Resumo: a taxa de mortandade por arma de fogo saiu 7,3 por 100 mil em 1980 para 22,4 por 100 mil, em 2014.

Em pouco mais de três décadas – 1980-2014 – quase 1 milhão de pessoas (967.851) morreram no Brasil por disparo de arma de fogo – homicídio (85,8%), causas indeterminadas, suicídios e acidentes.

Na Guerra do Vietnam, em seus 15 anos de duração, morreram 1,2 milhão de vietnamitas e 58 mil americanos. Em minha opinião, o Brasil pode não viver uma guerra nos moldes tradicionais, como a conhecemos. Mas com esta realidade, jamais podemos afirmar que vivemos em paz.

(Paz aqui, nem mais no cemitério, onde túmulos são violados a procura de algo valioso – ou nem tanto. Se der pra fazer um troco, tá de bom tamanho).

Outro fator que vira ao avesso o conceito do brasileiro cordial: a crescente utilização letal das armas de fogo. Em 1980, 70,1% das mortes por arma de fogo eram homicídios, enquanto em 2014, este percentual aumentou para 94,3%.

Há também seletividade nesta matança – por sexo, faixa etária e por cor. Homens (94,5%), jovens (60%) e negros (75%) são as vítimas preferenciais. Há um crescente aumento do número de negros vítimas deste tipo de violência. A cada quatro pessoas assassinadas por arma de fogo, três são negras.

Muitos acham que tudo isso é mais que normal, que sempre foi assim e assim sempre será. Enquanto isso, somos prisioneiros dos nossos medos e das incertezas que nos espreitam. Se temos dinheiro, contratamos segurança particular. Se não temos, rezemos para viver mais um dia.

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