Por que um abuso sexual ainda incomoda mesmo depois de anos?


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Na segunda-feira (13), Juliana Lohmann, 30 anos, compartilhou um relato onde fala que foi estuprada por um diretor de cinema . Segundo a atriz, o caso aconteceu há 12 anos, quando ela tinha 18 e viajou a São Paulo para fazer um teste de um longa metragem. “Ele me enganou, me drogou e me estuprou, violando sexual e deixando marcas que carregarei pro resto da vida”,  escreve. 

ilustração de mulher
FreePik

Psicóloga explica que abusos sexuais, como o estupro, deixam marcas para a vida toda

No texto, Juliana diz sobre como o acontecimento ainda reflete em sua vida, além de comentar a culpa que carregou durante tantos anos. No Instagram, a atriz também compartilhou seus sentimentos sobre ter exposto a situação após tanto tempo: “São acontecimentos que habitam meu íntimo de maneira muito profunda e constituem grande parte da mulher que me torno a cada dia”. 

“Essas memórias perduraram por tempo demais no silêncio e na dúvida que a estrutura patriarcal nos faz ter acerca das próprias marcas que nos infringem”, continua. Em entrevista ao Delas, a psicóloga clínica Daniela Generoso, presidente da ONG “É possível sonhar”, que atende vítimas de violência doméstica, explica que casos de abuso sexual, como o de Juliana, ressoam durante toda a vida. 

“É um trauma. É aquela cicatriz que fica e traz consequências”, fala. De acordo com a profissional, a vida social, profissional e íntima da mulher vítima de estupro vai ser afetada. “Ela não vai conseguir lidar com as pessoas e vai viver desconfiada, vai se achar inferior e duvidar da capacidade”, exemplifica. 

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Falar sobre o estupro que vivi aos 18 anos e as agressões provenientes de uma relação abusiva de tempos depois é resultado de um processo muito longo de elaboração. São acontecimentos que habitam meu íntimo de maneira muito profunda e constituem grande parte da mulher que me torno a cada dia. Essas memórias perduraram por tempo demais no silêncio e na dúvida que a estrutura patriarcal nos faz ter acerca das próprias marcas que nos infringem. Ajo movida pela força da certeza de que não podemos mais nos calar. Precisamos falar sobre as estruturas de opressão sob as quais as mulheres estão submetidas, sobre o machismo, sobre violência doméstica, sobre relacionamento abusivo, sobre estupro. Exponho esse relato no intuito de, além de jogar luz nessas questões, fazer com que outras mulheres, que talvez possam se identificar com tais acontecimentos, tenham mais clareza acerca das próprias experiências. Meu desejo, ao expor esse relato pessoal, é de denúncia. Não apenas da forma de operar desses homens, mas principalmente de um sistema. Esse isolamento me levou ao reencontro da coragem. Mas, nessa caminhada, tive pessoas que me deram a mão com muito amor. Obrigada @sayonarasarti @novacomunicacao pela confiança, escuta e parceria, e @claudiaonline @isadercole por ter me aberto esse espaço tão precioso. O link pra ler a matéria completa está na bio.

Uma publicação compartilhada por JULIANA LOHMANN (@julohmann) em 13 de Jul, 2020 às 2:39 PDT

Daniela relata que algumas mulheres desenvolvem transtornos psiquiátricos, como a ansiedade e depressão, transtornos alimentares e até problemas gastrointestinal. “É como se você tivesse sofrido um acidente e ficado com a perna manca. É uma consequência. Você consegue lidar? Sim, você vai aprender ferramentas para lidar se passar por terapia e vai conseguir se refazer, mas as consequências ficam”, aponta.

No relato publicado no site da revista Claudia, Juliana Lohmann fala sobre como sentiu por anos o que passou naquela noite. “Quanto mais eu me distanciava dos ocorridos, mais percebia que os danos psicológicos ainda reverberavam dolorosamente”, escreve. 

Culpa 

No texto, a atriz ainda comenta sobre como demorou anos para entender que o que aconteceu não foi sua culpa. “Eu passei doze anos, quase metade da minha vida até aqui, na dúvida. Eu me questionei se realmente eu não quis”, escreve Juliana.

De acordo com a psicóloga, a culpa é comum entre as vítimas de abuso sexual, inclusive, esse é um dos fatores que pode levá-las a demorar para expor o que aconteceu . “Sempre há um discurso para invalidar a mulher”, diz Daniela. 

Uma pesquisa de 2016 do Datafolha aponta que um em cada três brasileiros culpa a mulher em caso de estupro. “É um sistema patriarcal extremamente machista onde o homem ‘tem direito’ de possuir a mulher”, fala a psicóloga. 

Nesse sentido, Daniela reforça que sexo é algo consentido e que o “não” deve ser respeitado. Além disso, lembra a importância de denunciar formalmente, mesmo que de forma anônima.. “Precisamos expor o que acontece com a gente”. 

Fonte: IG Mulher

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