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Quilombolas denunciam invasão de território, restrição a cemitério histórico e impactos ambientais em Poconé
Foto: Roberto Marques
Há mais de 13 anos, a Comunidade Quilombola Carretão, localizada na zona rural de Poconé (MT), convive com um conflito fundiário que, segundo os moradores, segue sem solução definitiva. Enquanto o processo judicial permanece em tramitação, as famílias afirmam que continuam impedidas de exercer plenamente seus direitos sobre o território tradicional, levantando questionamentos sobre a atuação dos órgãos responsáveis pela regularização fundiária e pela proteção das comunidades quilombolas.
De acordo com documentos apresentados pela comunidade e relatos de suas lideranças, a disputa teve início em 2013, quando dois produtores rurais passaram a ocupar parte da área reivindicada pelos remanescentes quilombolas. Desde então, o caso tem sido marcado por decisões judiciais, recursos e procedimentos administrativos, sem que haja uma definição definitiva sobre a posse da área.
Enquanto o impasse persiste, os moradores afirmam que atividades agropecuárias continuam sendo desenvolvidas no território em litígio.
Acesso ao cemitério histórico estaria impedido
Uma das principais denúncias feitas pela comunidade envolve o suposto bloqueio de acesso ao antigo cemitério quilombola, onde, segundo os moradores, estão sepultados antepassados de aproximadamente 250 a 300 anos.
As lideranças relatam que porteiras foram trancadas com cadeados, impedindo que familiares realizem visitas, limpeza dos túmulos e homenagens aos seus ancestrais.
Caso a denúncia seja confirmada pelos órgãos competentes, a situação poderá envolver não apenas questões possessórias, mas também a preservação da memória, da cultura e do patrimônio histórico da comunidade tradicional.
Moradores apontam possíveis impactos ambientais
Outra reclamação diz respeito a supostas intervenções ambientais realizadas na área.
Segundo os quilombolas, a abertura de canais de drenagem e alterações no curso da nascente conhecida como Córrego do Nilo provocaram o desaparecimento de fontes de água utilizadas pela comunidade. Os moradores afirmam que as intervenções resultaram na formação de uma extensa vala seca onde antes havia o curso natural da água e teriam sido executadas para favorecer atividades agropecuárias.
Até o momento, entretanto, não há laudo técnico público que confirme ou descarte essas alegações. A apuração depende da atuação dos órgãos ambientais competentes.
Relatos de ameaças e registros policiais
Os moradores também denunciam um histórico de intimidações ao longo dos últimos anos.
Segundo lideranças locais, mais de 15 boletins de ocorrência foram registrados nas delegacias de Poconé e Várzea Grande, relatando episódios de ameaças, inclusive disparos de arma de fogo nas proximidades das residências.
Conforme os relatos, o clima de insegurança fez com que diversas famílias deixassem temporariamente a comunidade por medo.
As circunstâncias desses registros e seus desdobramentos ainda são objeto de investigação pelas autoridades.
Questionamentos sobre registros da propriedade
A comunidade também pede que sejam investigadas possíveis irregularidades envolvendo documentos cartoriais e atos relacionados à propriedade da área.
Os quilombolas defendem que os fatos sejam apurados pelos órgãos de controle e pelo Poder Judiciário.
Até a publicação desta reportagem, não existe decisão judicial definitiva reconhecendo fraude ou ilegalidade nos registros imobiliários, motivo pelo qual o caso permanece sob análise das autoridades competentes.
MPF realiza visita técnica
No início de julho de 2026, a equipe do MT em Foco, representada pelo jornalista Roberto Marques, acompanhou uma visita técnica realizada por integrantes do Ministério Público Federal (MPF) à Comunidade Quilombola Carretão.
Durante a diligência, representantes do MPF ouviram moradores, receberam documentos e verificaram as condições enfrentadas pelas famílias.
A expectativa da comunidade é que a atuação do órgão contribua para acelerar a solução do conflito e garantir os direitos assegurados às comunidades quilombolas pela Constituição Federal.
Direito ao contraditório
A reportagem informa que buscará ouvir os dois produtores rurais citados pelos moradores, seus representantes legais, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Ministério Público Federal, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso, o cartório responsável pelos registros da área e demais órgãos mencionados nas denúncias.
O objetivo é assegurar o direito ao contraditório e à ampla defesa. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos.
Treze anos de espera
Após mais de uma década de disputa, a comunidade afirma continuar à espera de respostas para questões consideradas fundamentais: quando será concluída a regularização do território? Houve, de fato, impactos ambientais na área? Os moradores voltarão a ter acesso ao cemitério histórico? Quais medidas serão adotadas para garantir a segurança das famílias?
Enquanto essas perguntas permanecem sem resposta, os remanescentes da Comunidade Quilombola Carretão aguardam uma solução definitiva para um conflito que, segundo eles, atravessa gerações.
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